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2024

 Se não fosse a natureza, eu surtaria Na era da tecnologia, contando as cinco horas diárias que eu passo fazendo nada no telefone, tendo dificuldade pra fazer uma meditação guiada (pq eu sozinha com a minha mente não consigo voltar pro presente), se não fosse a natureza e a meditação contemplativa, eu surtaria Passarinhar é um verbo que eu gostei assim que conheci, que significa admirar ouvir e buscar os passarinhos e aves daquele local. Tem muita árvore na minha casa e eu recebo diversas visitas. Me familiarizo com algumas espécies pela cor da plumagem ou pelo canto que fazem, apesar de não ter sido apresentada formalmente. Isso me salva de me perder no vazio raso que as redes sociais me oferecem. Ser natureza me mantém viva.

20/10/2024

 A autenticidade é um exercício que demanda coragem. Coragem pra ser quem é, pra assumir e ressoar a versão que você quer sobre si mesma. Tem coisas que gritam lá no fundo da consciência, mas pelo comodismo a gente acaba deixando de lado - e pra isso é preciso coragem, pra trazê-las à superfície. Se ninguém é igual, se cada experiência é única, se cada beleza é individual, e eu não estou mostrando o melhor de mim, pra qual planeta/existência eu tô me guardando? Quando eu era criança, admirava algumas pessoas adultas que apareciam na minha vida, uma pelo modo descontraído de se vestir, outra pelo gosto musical diferente do que eu havia vivenciado, ou então pelo jeito diferente de agir. E hoje eu entendo que, colocando o orgulho de lado, é o nosso jeitinho que nos torna especial, como a forma como eu estendo roupa no varal, ou o jeito que seguro a caneta ao escrever. São nossos detalhes que nos tornam únicos. Mas, também, venho entendendo que ser adulta consiste no equilíbrio entre s...

entre razões e emoções

os pensamentos ficam intoxicados com a paixão. sinto-a quase como um corpo abstinente que anseia por sua droga.  sou meio viciada em me apaixonar, agarro com consciência cada oportunidade de experimentar essa emoção. eu adoro me apaixonar e ver a vida radiante, com pensamentos gostosos me fazendo companhia. porém, o desapaixonar é tão intenso quanto. "A paixão é uma emoção intensa e persistente, capaz de influenciar significativamente o comportamento e o estado mental de uma pessoa." eu sou nascida em julho e, portanto, canceriana. a vida toda lidei com o estigma do signo de água. então, inconscientemente criei uma barreira racional, mesmo apesar de lidar bem com as emoções e sentimentos - ou ao menos é o que eu pensava.  do último ano pra cá, tenho percebido que suprimi um bocado de coisas dentro de mim, e negado um tanto de outras. desde o começo do ano venho tentando dar mais espaço pra água que me habita, e, por causa disso, tenho sentido muita coisa. a razão vem como uma...
 Sinto a vida viva. Gosto de sentir, de me apaixonar, de chorar minhas tristezas, mas, sobretudo, lidar com minhas emoções. Não tô alheia ao presente, e não me escravizo pelo passado, tampouco pela promessa do futuro. Recebo o que chega, e deixo partir o que não é mais.  Abri mão do controle.

Quase

 “Acreditando apaixonadamente em algo que ainda não existe, nós o criamos, O inexistente é tudo o que não desejamos suficientemente.” Nikos Kazantzákis, escritor  O luto pela idealização dói mais que pelo que realmente aconteceu. Marilia cantou “me apaixonei pelo que eu inventei de você”. A realidade é, sempre, mais fácil de lidar do que se comparada à idealização.

profissões

 Devo escolher um ofício em que mesmo quando haja dificuldade, aquilo me faça feliz. Longe da romantização, mas que eu não sucumba diante das tormentas, que os motivos que me fizeram escolher sejam suficientes para superá-las. Entre o direito e o artesanato, tendo a pensar que no artesanato posso atravessar as dificuldades sem pesar. No entanto, como disse Allana: Eh se jogar mesmo amiga. A gente não aprendeu querer ser empreendedor, o que tava no nosso quadrado é que tinha que fazer concurso depois da faculdade… Ou seja, é preciso coragem pra começar o que me fará feliz.

lidar pra estar em paz

 A vida é boa. Tem suas dificuldades, mas é boa. A gente tem o hábito besta de ficar criando dificuldade pra não lidar com o fato de que viver é bom. Eu perco tempo com coisa fútil, pra estar sempre em cima da hora, correndo, criando atraso, demanda. Sendo que, se priorizar umas coisas às outras, posso ter tempo e energia pra fazer tudo com calma. Com alma. Calma e coragem são os ensinamentos que, penso eu, posso trazer da derradeira consagração à ayahuasca. Na miração eu vi o tempo correndo, vi a lida soterrada por essas dificuldades que eu crio pra fugir de ter uma vida pacífica.  Na verdade, em fuga da realidade. E a realidade é essa: a vida é boa, cheia de conflitos internos pra serem resolvidos, mas fugir deles é criar toda uma dificuldade ao redor, não resolve. A vida difícil traz uma sensação de poder, pq a gente se pega dizendo estar sem tempo, ou atravessando problemas (que muitas vezes a gente mesmo criou), então tem esse gosto de importância. Lidar com os problemas ...

não tem título pra isso

 no ano passado eu fui estuprada; e quatro dias depois meu pai desencarnou. eu mal tinha tomado a pílula do dia seguinte, ainda pensando em ISTs, e logo veio o luto desde então, eu venho lutando e aprendendo sobre a vida e sobre mim, mas ainda não consegui processar a violência e como lidar com ela. mais de um ano se passou e eu ainda não tenho forças pra pensar em ir a uma delegacia reviver a dor - não sabendo que tipo de acolhimento poderia receber caso arranjasse coragem. eu sou só mais uma na estatística de estupros não denunciados - e felizmente não precisei pensar em um possível aborto, posto que não engravidei, e, afinal de contas por um tempo eu nem sabia mais quem eu era, vivendo o luto. apesar das minhas escolhas, eu não escolhi, não consenti.

autorreflexão, em desabafo

 estudando o kardecismo eu me deparei com um tema que dizia que o homem (criatura) criticava Deus (criador) pensando que podia fazer melhor que ele, e o estudo propunha a gente a raciocinar como é que deus (perfeito) teria feito a gente de forma imperfeita, e ainda como a gente poderia pensar MELHOR que ele sobre o que ele mesmo criou bom, essa reflexão pra dizer que eu gostaria que houvesse um livro dos espíritos 2.0, pra atualizar algumas questões - ou só a do aborto, porque nessa semana de discussões sobre a PL1904 disseram que o uso do DIU é abortivo, que pílula do dia seguinte é abortiva, salvando dessa culpa apenas o anticoncepcional, pois impede a ovulação ou seja, de acordo com o espiritismo (até onde estudei) só não é abortivo o a.c. e o celibato se Deus, que é perfeito, conhece cada dificuldade que enfrenta o meu espírito, por que me cobraria responsabilidade pelo aborto de um espírito que eu corri atrás pra que não fosse gerado? uma camisinha (método contraceptivo) estou...

hoasca

consagrando ayahuasca eu pude viver muitas vidas fui felina, fui andrógina, fui filha da mata, filha do mundo (fiz morada no caminho), tive tranças e dreads  fui derretendo, mas também minha pele foi grudenta e irresistível passar a língua nos meus dentes caninos fizeram eu me sentir uma onça pintada, braba e manhosa, que sobe em árvore pra deitar chorei de amor pelos sobrinhos, pelo afeto admiração e respeito que estamos cultivando; sinto que esse amor foi um sentimento de vibração tão elevada que me levou pra borracheira também vivi uma vida com meu sobrinho mais velho, como irmãos; vivemos a adolescência e o começo da fase adulta juntos - eu o vejo, e o sinto,  vi nele muito de mim, no jeito e na aparência vivi um romance sáfico do jeito que eu imaginava ser, gostoso ser mulher e cultivar outra comigo, vivi minha própria saída do armário, experienciando o nervosismo de conhecer e fazer parte da vida dela ri do cachorro caramelo que olha de soslaio, ri do “mestre” mais velhi...

sonho de menina e o caminho que me trouxe até aqui

  Conversando com Bárb outro dia eu me dei conta de um possível ponto chave na minha vida: o dia em que tive oportunidade de trair meu namorado, realizando um sonho de criança, mas não o fiz. Desde criança eu via um garoto na igreja católica e pensava que seria meu sonho casar com ele. Ele era o modelo de rapaz perfeito: bonito, inteligente, educado. Quando adolescente, a gente começou a conversar via skype e surgiu um interesse mútuo. Ele morava em outra cidade e por isso a conversa virtual.  Veio visitar a família durante as férias e ficamos de mãos dadas na igreja, pq aquilo era meio que a realização do meu sonho de criança, então eu quis aproveitar o que pude sem me trair e sem trair a confiança do meu namorado. Depois do culto ele tentou me beijar, mas na deixei, dizendo que namorava. Aquilo partiu o coração dele, quase chorou de choque. E me abandonou, sozinha na rua da igreja, deserta. Nunca mais conversamos. Crescemos, ele se casou. No natal passado veio com a esposa v...

intergeracional

a geração da Nonna foi marcada por privação, ao passo que ela jovem viveu a segunda guerra mundial. a típica família descendente de alemão/italiano* que venceu na vida através do trabalho no campo. mamãe e papai viveram o próprio êxodo, e encontraram no funcionalismo público a estabilidade pra viver uma boa vida. a partir disso que tivemos os privilégios que nos deram, como estudo de qualidade e o incentivo a fazer um curso superior. esperam em nós o que eles mesmos alcançaram. meus irmãos cumpriram o papel, ambos funcionários públicos, casados, com casa, carro e filho. o pacote completo. sob essa ótica, orgulhos da família. já barb e eu, apesar do diploma, não seguimos o mesmo rumo - até tentamos, mas às duras penas descobrimos (talvez cedo demais) que não era nossa praia. ambas, trabalhando como assessoras em órgão público em cidades do interior iniciadas com a letra C (apenas uma curiosidade que eu aprecio), ganhando talvez mais que o restante da família, descobrimos que o dinheiro ...
  apesar da quantidade de coisas feitas hoje, sinto que finalizar o dia escrevendo será o abraço na alma depois de um encontro que preencheu um suposto vazio, onde muito foi emanado, passei da vontade latente de expandir para a realização não acredito que as coisas ocorram por acaso, passei o dia com sorriso bobo no rosto, sinto-me esperançosa

Suddenly I see

 Chegaram em casa, com a vontade de assistir a um “filme de garotas”, pois, afinal, era sábado à noite. O filme em questão é aquele que, nas palavras de Gabi, tem uma música da Lizzo enquanto a personagem principal - que fez Jane, the virgin - cantando na cozinha. Barb também não lembra o nome, mas isso não é importante, porque a memória virá no momento certo. O que importava era o desejo de Barb de ver um episódio de Insecure antes do filme, posto que as duas passaram o dia inteiro se entreolhando e comentando apenas “e a Molly, hein?!”. Diga-se de passagem que não assistiram a apenas um, mas a dois episódios, porque afinal de contas é impossível consumir um único pedaço de Insecure - é bom demais, pede bis. Contudo, antes mesmo do play, Gabi relembrou a irmã que haviam comprado morangos congelados da promoção, e que, por ser um sábado longe dos perigos noturnos, mereciam uma vitamina caprichada com banana. Acontece que a essa ideia foi acrescentado álcool. Gabi, como quem não que...

sobre leitura

Minha mãe é professora, e meu pai era policial. Ambos valorizavam muito a educação como forma de vencer na vida, a exemplo da história deles. Certa vez, buscando incentivar a leitura em nós (Barb e eu), pra que isso levasse ao gosto pelo estudo, papai nos levou à Biblioteca Monteiro Lobato e deixou que cada uma escolhesse um livro pra levar pra casa. Obviamente eu escolhi gibi da Mônica, porque eram inacessíveis pro nosso contexto econômico. Papai deixou. Porém, na próxima vez que nos levou lá, fui seca nos gibis novamente. Ele disse que eu poderia ler um pouco lá na biblioteca mesmo, mas que para levar pra casa eu deveria escolher algo diferente. Então, comecei a passear pelas prateleiras, analisando tudo o que tinha ao meu alcance, até encontrar um livro perfeito pra ler naquela semana. Fiquei namorando um livro enorme e cheio de fotos de Shakespeare, mas como ele tinha um número considerável de páginas (informação importante pra Gabi criança) eu pensava nele como uma meta - quando e...

Amor e ódio

  Penso em cultivar o amor, como o verbo sublime, em todas as relações.  Assim, quando surge uma adversidade, eu escolho o caminho do amor. Houve situação em que, pautada por esse sentimento, não escolhi lados, porque acredito que amor mal resolvido vira ódio. No entanto, seguindo essa premissa, numa nova situação que ocorreu com pessoas próximas a mim novamente, minha conduta foi respondida com ódio e com violência. Eu compreendo que isso diz sobre quem a pessoa é, e não sobre mim, revelando o conteúdo de si mesmo que até então estava escondido. Fazer a separação entre o algoz e eu foi relativamente fácil, apesar dos dias que foram consumidos para digerir essa situação. O que me espanta até hoje é o comportamento dos amigos em comum que não foram envolvidos diretamente nessa situação, mas que escolheram seus lados - o lado da violência. Pessoas por quem eu tinha estima pensaram por bem aceitar a violência contra a mulher.  Agora eu me encontro refletindo sobre essas situ...